DISTRAÇÕES_i_IMAGENS

...um olhar sobre... as MINHAS IMAGENS preferidas e algumas DISTRAÇÕES ...

"A fotografia é a poesia da imobilidade: é através da fotografia que os instantes deixam-se ver tal como são." (Peter Urmenyi)

"A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros. Devem ser zeladas pelo indivíduo em particular" (Mahatma Gandhi)

terça-feira, janeiro 04, 2011

... lavadeira ... de roupa mas não da Vida ...

Maria Pia, era como o seu pai, um dia, há 56 anos lhe tinha chamado…
Era uma mulher simples, cara enrugada, feições simples.
Maria Pia era viúva, mãe de quatro filhos, andavam todos “à escola”, era como se dizia lá na terra.
Há dois anos, por esta altura, a Vida tinha-lhe pregado uma partida.
Era noite, lá fora, fora daquelas quatro paredes, nas vésperas do Natal…
Lá fora fazia frio, a noite estava escura como breu. Na serra, nas terras outrora de Viriato, nevava. Amanhã, os primeiros raios de Sol iam mostrar a Maria a paisagem manchada de um branco alvo.
Batiam à porta, nessa noite fria, estavam a bater-lhe à porta.
Com este frio, a esta hora da noite, quem seria? Quem teria tido a coragem de percorrer os caminhos estreitos e as veredas na serra?
Abriu a porta…

- Boa noite, Maria – disse-lhe o sargento da guarda.
- Boa noite, Severino. Então por aqui a esta hora. Está tanto frio – respondeu Maria.

Maria conhecia Severino desde os tempos de criança. Tinham brincado juntos. Agora Severino era Sargento da GNR. Era a autoridade lá da terra.

- Desculpa Maria, mas não te trago boas notícias. Houve um acidente, na estrada da beira… O teu Joaquim…

Maria recuou, como se tivesse levado uma pancada no peito. Sentia o seu coração a bater a galope… O seu Joaquim …
O pânico apoderou-se da sua mente. Maria sabia, no seu coração que Joaquim não estava bem. Severino não trazia boas notícias. Tinha havido um acidente…
Os seus filhos, olhavam para Maria Pia. De olhos abertos, feições marcadas pelo medo, olhavam para a mãe, ao mesmo tempo que duas lágrimas percorriam os sulcos da face de Maria.
Maria Pia, fitou os seus filhos, e perguntou-se:

- Como vai ser a nossa vida?

Tinha sido há dois anos. A sua vida tinha dado uma reviravolta …

Nesta noite, Maria estava sentada num pequeno “mocho”, olhava para as brasas do seu pequeno lume de chão. Recordava aquela noite, há dois anos… Enquanto remexia no borralho.
Levantou a cabeça. Olhou para os seus filhos, que terminavam a janta.
Hoje, nesta noite estava tanto frio. Lá fora o vento e a chuva não paravam. Estava frio naquelas terras outrora percorridas por Viriato.
A janta hoje, tinha sido de gala. Sopa, duas pequenas postas de bacalhau com batatas e couves para todos, e depois rabanadas. Afinal era véspera de Natal. Tinha nascido o Menino da Esperança.
Maria, não tinha comido mais nada. Apenas um prato de sopa. Estava cansada.
Sentada no mocho, remexia o borralho, em busca de mais calor.
Amanhã, era dia de Natal.
Amanhã, Maria tinha de ir ao tanque do povo, para lavar a roupa. Desde esse dia, há dois anos, que era Lavadeira…
No Inverno custava muito, sofria…
Lavava roupa todos os dias, fosse Inverno ou fosse Verão… Lavava, pendurava, passava a ferro.
Todos os dias, até no dia de Natal. Se continuasse a chover, a roupa amanhã tinha de secar debaixo do telheiro.
Não era a mesma coisa. O Sol não lhe chegava e não corava a roupa branca.
A água estava gelada. As mãos doíam.
Hoje também tinham doído. Hoje também estavam geladas. Quando terminou a “faina” pareciam duas pedras de gelo, roxas …
Mas hoje tinha sido especial. Os filhos tinham ido ajudar, para poderem cear. Não tinham escola.
Mexia no borralho. Mesmo assim, as suas mãos, crestadas e tisnadas pelo tempo e sofrimento, estavam ainda frias.
Ao levantar-se da mesa, depois de ter comido o prato de sopa, Maria, afagou cada um dos filhos único presente de Natal que lhes podia oferecer, ao mesmo tempo que lhes dizia :

- Feliz Natal, meus filhos. O Menino vem hoje visitar-nos.
- Mãe, tens as mãos tão frias!! Até doi quando me tocas na cara – disse-lhe o mais novo.
- Mãe, não faz mal, o teu carinho é tão quentinho, mesmo com as mãos frias ! – disse-lhe a do meio.

Afinal Maria era também lavadeira. Lava roupa durante o dia.
Lavava roupa de manhã ao cair da noite, fosse Inverno ou Verão…
Olhava para os seus filhos… Eram o seu tesouro… Aqueciam o seu coração…
Maria continuava sentada junto ao borralho. Já não chorava. O frio tinha-lhe secado as lágrimas.
O frio da Vida, o gelo tinha-lhe roubado a possibilidade de chorar, mas não lhe tinha gelado a saudade e o sofrimento.
As mãos, essas continuavam frias. Mas as suas mãos, mesmo geladas, davam calor e conforto.
Afinal Maria Pia, era lavadeira. Lavava roupa, mas não conseguia lavar a sua vida.
Lavava roupa fosse Inverno ou fosse Verão. O Sol secava a roupa lavada, dava novas cores à roupa estendida, aquecia a roupa e os Homens, mas não aquecia Maria.
Fosse Inverno ou fosse Verão, Maria Pia lavava roupa durante o dia ...


(Fotografias de FAIRES)

3 comentários:

  1. Belo texto, muito sentido.
    Ainda há lavadeiras assim? Hoje não se lava já tudo na máquina? :)

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  2. Obrigado pela apreciação. Vindo de quem vem, com o dom natural para escrita, sabe bem melhor.
    Sim ainda há Lavadeiras, tanques e ainda se lava roupa no rio.
    Ainda há tanques comunitários.

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  3. Belas fotografias e texto...Espectacular....
    Um abraço

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