DISTRAÇÕES_i_IMAGENS

...um olhar sobre... as minhas IMAGENS preferidas e algumas DISTRAÇÕES ...

"A fotografia é a poesia da imobilidade: é através da fotografia que os instantes deixam-se ver tal como são." (Peter Urmenyi)
"A dignidade pessoal e a honra não podem ser protegidas por outros. Devem ser zeladas pelo indivíduo em particular" (Mahatma Gandhi)
"Para viajar, basta existir. " ( Fernando Pessoa )

segunda-feira, novembro 25, 2013

... 38 anos após ...

Em 1981, foi adaptado para televisão, o romance Reviver o Passado em Brideshead ...


... 38 anos depois ...

No passado fim de semana, sem saudosismo ou outro tipo de "ismo" de qualquer espécie, também eu por algumas horas, revivi o meu passado, a minha infância, principalmente os meus primeiros 12 anos de existência.
Finalmente, após cerca de 18 meses de presença em Angola, desloquei-me à minha terra natal. Durante a viagem, o que começou por ser um sentimento de ansiedade, passou rapidamente para um sentimento de quase contemplação, tal era a beleza da paisagem que íamos atravessando. Ao longo do percurso, senti-me entre, estar a percorrer os caminho da Serra de Sintra e estar em direcção aos Pirinéus ou até Picos da Europa. A paisagem frondosa e verdejante ia passando defronte dos meus olhos, sem ter quase tempo para ver e admirar.

Cerca de 600 km, é a distância que separa Luanda do Huambo...
Ao partir, e já há algum tempo, tinha na mente, quase o mapa perfeito da cidade do Huambo. Tinha a certeza de saber onde tinha vivido, as minhas escolas, o local de trabalho dos meus pais, entre outras coisas.

Finalmente, chegámos ... 

Por momentos, aquela entrada na cidade, era para mim totalmente desconhecida ... afinal, o que até aí era uma certeza, estava prestes a desmoronar-se, e o desconhecimento estava a tomar conta de mim ...

... lá ao fundo, aparece uma imagem, uma praça ... 
... afinal, eu conheço, ainda me lembro ...
... vira à esquerda, segue em frente, contorna, entra pela direita ... foram expressões que passaram a fazer parte da minha forma de comunicação ...
... vira à direita, segue um pouco em frente ... pára aqui ...


... abro a porta do carro, e estou em frente à minha escola onde entre 1973 e 1975, completei os 1º e 2º anos do ciclo preparatório ...

Igual, reconheceria aquele edifício sempre e em qualquer parte do Mundo ... 
... do meu lado esquerdo a antiga Escola Industrial, e do meu lado direita fica o Liceu ...
... e eu em frente à minha escola do Ciclo Preparatório, situada no Bairro Académico.
... não consigo exprimir o que sinto ...
... parto ...
... agora próximo destino ...
... eu vivia no Bairro Académico, ia todos os dias a pé para a escola, e demorava cerca de 10 a 15 minutos ...
Em frente ao Liceu, começamos a descer ... a segunda cortada à direita, entramos nessa rua ...
Ainda lá está a placa ... Rua Egas Moniz ... 
Paramos em frente à terceira casa a seguir à escola primária ... a primeira, era a do Sr. Galo, funcionário dos Caminhos de Ferro de Benguela, a segunda da D. Rute, cujo filho, o Carlitos era meu amigo e companheiro de brincadeiras e asneiras de rua ...
Mais uma vez, saio do carro ... estou em frente à casa, onde morei cerca de 8 anos da minha vida, até ao ano de 1975.

Era esta a casa onde eu, com os meus pais, a minha avó e a minha irmã, vivemos ...

A minha irmã nasceu nesta casa ... no quintal, nesse dia, foi plantada uma mandioqueira ...
Sei e descrevi aos meus colegas, o layout da casa... o meu quarto dava para o quintal, para uma varanda que tinha da parte traseira. 



Ao fundo da passadeira onde eu tantas vezes joguei à bola ou caí a andar de patins, a garagem, onde eu guardava entre outras coisas, as minhas bicicletas de marca ULISSES, forte concorrente a IMPALA ... uma bicicleta em cor verde chopper, que se dobrava ao meio para facilitar o transporte ... a outra, mais velhota, era vermelha. Já lhe tinha tirado os guarda-lamas, modificado volante, para transformar esse "veículo" infernal, numa bicicleta de cross ... tanta, mas tanta queda dei naquela "doida" ...

Apenas uma diferença e uma dúvida ... 
A diferença, é que os muros não eram tão altos ...
A dúvida, é se a cor da casa era esta ... 
... na casa da frente, morava o Silo, depois ao lado a Cristina que era muito mais alta que nós todos lá na rua ... um pouco mais abaixo a Maria José e a Maria João, e em frente, mas do outro lado da rua, a Vânia, miúda de olhos azuis e cabelos louros ... Eramos 6 ou 7 compinchas, mais ou menos todos da mesma idade. O mais novo era o Carlitos ... e talvez a Maria José que era irmã da Maria João ...
A minha irmã, mais nova do que eu 5 anos, (ainda hoje é mais nova, nem sei bem porquê), era a reguila, que insistia em brincar com os mais crescidos. Era na altura a figura da "Maria rapaz" ... 
Todos, quase sempre descalços, para desespero do pessoal adulto a quem dão o nome de "PAIS" ...
Estranha sensação, aquela, naquele momento ...
Partimos ...
Em direcção ao centro da Baixa da cidade ... Ao fundo da rua, no fundo do bairro, do lado direito a antiga COFA, viramos à direita e entramos na Granja.
Encaramos, uns metros à frente com a Praça do Mercado ( antiga Praça Vicente Ferreira ) ... o hotel que estava em construção, continua por acabar ... o tempo parou ...
Seguimos em frente, viramos à esquerda, e novamente à esquerda ...
Paramos ... do lado esquerdo, do outro lado da rua, está a Farmácia Sanitas ... as portas estão fechadas ... o edifício aguarda a sua recuperação ... 



Lá dentro ... consigo espreitar e ver como se encontra o local onde os meus pais trabalharam durante muitos anos e onde eu durante o tempo de escola primária, passava os meus fins de tarde a fazer os deveres da escola. Saía da escola por volta das 16:00 horas, corria rua acima e ia para a farmácia. Lá dentro, havia e ainda há um laboratório e armazém. Estava lá uma secretária, onde eu, depois do lanche me sentava a fazer os TPC's (nome fino para os trabalhos de casa)...
...cópia, palavras difíceis escritas 3 vezes, tabuada e algumas contas em que incluía a conta, a prova real, a prova inversa e a prova dos "9".
Tenho quase a certeza que, nos dias de hoje, sem se recorrer à máquina de calcular, poucos estudantes saberão do que estou a falar. 


O Windows ainda nem sonho era, só mesmo as janelas das casas, e computadores era algo que .... bem é melhor nem falar ...


Quando olhei para dentro, senti um baque ... Todo o mobiliária e a sua disposição é exactamente a mesma de há 38 anos... prateleiras vazias, mas o estabelecimento está limpo e arrumado ... não me pareceu que estivesse a funcionar ...

De acordo com a informação, esta farmácia estaria hoje de serviço. Recordei a imagem do meu pai, todos os dias à mesma hora, a mudar as placas para informar quais as farmácias de serviço na Alta e na Baixa da cidade. Na Alta está de serviço a Farmácia Portugal ( que ainda existe e trabalha), e na Baixa, está de serviço "esta farmácia". Todos os dias de manhã, o meu pai mudava as placas de vidro. 

É deveras uma sensação de paragem total no tempo ... olho para o relógio de parede no fundo ... também está parado ... são segundo "ele" ... 08:35 horas ... quando terá parado o tempo aqui ?

Começa a chover ... corro para o fundo da rua, e tento descobrir mais uma coisa ...
Será que ainda existe ?


... sim, existe, está aberta e a trabalhar ...
Há 38 anos, eu entrava por esta porta e o Sr. Nelson, o barbeiro da família estava a trabalhar, "alindando" quem lá se dirigia ...
As cadeiras são as mesmas... tenho a certeza ...
As cores, essas tenho dúvidas e também não existia o cortinado ao fundo ...


Falei com o "Sr. Nelson" dos dias de hoje ...
Pedi-lhe autorização para fotografar ... expliquei-lhe o porquê ...
- Como se chama ? - pergunto-lhe
- Adelino - responde-me.
E de seguida, pergunta-me ele:

- E o senhor, como se chama e como conhece aqui a barbearia ?
- Chamo-me Fernando, e até há cerca de 38 anos atrás, vinha aqui para cortar o meu cabelo. Sou filho, do senhor que trabalhava na farmácia, na ponta da rua, a Sanitas ...

O homem olhou para mim com ar incrédulo.
Talvez tenha acreditado quando lhe disse :

- Aqui ao lado, havia uma loja de roupa para crianças, a Carochinha, e um pouco mais à frente, uma loja que vendia artigos de pesca e armas desportivas, a Casa Dumbo...
- Pois é, tem razão .... era isso mesmo... ambas fecharam e agora vendem-se lá outras coisas.
... e eu de saída, disse-lhe:
- Até à próxima Sr. Adelino. Da próxima, o senhor corta-me o cabelo ...

Por hoje, chega ...
Entro no carro e sigo para hotel ...

Saio um pouco mais tarde, para jantar . Vacilo entre o Império, conhecido na altura pelos seus pregos, ou um restaurante mais ou menos novo, o Huambo.
Enquanto decido e não ... sento-me no jardim que está numa das ruas da Alta da cidade.
Um pouco à frente da Praça Agostinho Neto.


O jardim está iluminado, enquanto a noite cai sobre a cidade do Huambo.




Sento-me, a .... pensar como tinha sido aquele dia que terminava.


Observava as luzes deste jardim... Deste eu não me lembrava mesmo ...


Caminhei um pouco ao longo deste jardim, e os meus olhos paravam por vezes em pequenos apontamentos que transmitiam serenidade à noite da cidade do Planalto Central.



Huambo, antiga cidade de Nova Lisboa ... 
... a minha terra natal ...
Amanhã há mais, pensei eu ....
E calmamente dirigi-me ao Restaurante Huambo ...
Sentei-me, abria a lista ...
- Quero um fino Cuca e uma Francesinha (à moda do Porto, como estava escrito na lista).
(Já agora, o cheesecake é uma especialidade).
Comi um doce de bolacha, leite condensado e natas, e terminei com um café.

(Fotografias de FAIRES)

6 comentários:

  1. E assim, vou sabendo de si !...
    Deve ter sido um misto de revolta e de uma tristeza alegre, não ?...
    Tenho a certeza que há 38anos a Barbearia não tinha grades !
    ( E nunca fui a Nova Lisboa ! )..

    Um grande abraço e grato por descrição tão viva !

    ResponderEliminar
  2. Que dia tão especial e cheio de recordações, compadre...
    E que maravilha, teres a oportunidade de voltares aos lugares onde já viveste.
    Um beijinho.

    ResponderEliminar
  3. Caro João, curiosamente não senti revolta
    Talvez mais uma estranheza de ver que tudo se encontrava mais ou menos parado no tempo.
    A cidade está muito organizada, limpa e circula-se perfeitamente, sem qualquer tipo de constrangimentos.
    Foi e continua a ser feito um esforço enorme no sentido de reconstruir e melhorar. As autoridades provinciais têm a plena consciência da importância desta cidade.
    Agora, o que realmente me meteu alguma confusão foram as grades, as protecções, que também na alta da cidade estão a ser removidas a par das construções ilegais.
    Huambo está a ser rejenuvescido mas ainda vai demorar o seu tempo.
    Mas nesta cidade, curiosamente há não só esperança, mas também empenhamento por parte da população em geral, coisa que não acontece em Luanda.
    Um grande abraço,

    ResponderEliminar
  4. Senti esse turbilhão de emoções e o mesmo deveria acontecer comigo se visitasse a minha terra Natal. Conheço bem Nova Lisboa - Huambo e reconheci alguns edificios:) e felizes de todos aqueles que podem voltar às suas raízes.

    Comovi-me muito e obrigado por esta reportagem.

    Aque abraço

    ResponderEliminar
  5. Tudo bem contigo e com o teus? E a nossa Angola?

    Um abraço

    ResponderEliminar
  6. Caro Ferreira:

    Só agora (janeiro 2017) vi este teu post e senti uma grande emoção. Brincámos várias vezes junto à Farmácia, naquele mini jardim, em frente, em forma de triângulo e com uma árvore grande ao meio. Morava aí muito perto. Mandei-te um e-mail para podermos conversar. Grande abraço, Ginjo

    ResponderEliminar